O Brasil vai investir 2 trilhões de reais em tecnologia entre 2026 e 2029. O número é da Brasscom: 2 tri no total, com 765,6 bilhões em cloud, 736,6 bilhões em IA e 252,4 bilhões em data centers.
Só em 2025, o macrosetor de TI já movimentou 919,7 bilhões de reais, 7,2% do PIB, com alta de 15% em um ano. O país que tratava tecnologia como setor está tratando como base.
O presente e a fila
O retrato atual já é relevante: 205 data centers operacionais e matriz elétrica 88% renovável. O retrato que decide a década está na fila: 38 gigawatts em pedidos de conexão, alta de 330% entre 2024 e 2025. Desses, 7,1 GW já estão em estágio avançado, o equivalente a 28,7 bilhões de dólares em investimentos.
Para dar escala ao número: 38 GW é dezenas de vezes a capacidade conectada do setor hoje. A fila não é sinônimo de obra, mas é a melhor proxy de intenção de capital que existe: empresas pedem conexão quando a decisão de investir já foi tomada.
Por que energia mudou de lado no tabuleiro
A IA transformou energia no gargalo global da década. Data center que não consegue watts não é projeto, é renderização. E é aqui que o Brasil joga com baralho diferente: matriz 88% renovável num mundo que precisa descarbonizar exatamente a carga que a IA está criando.
O contraste internacional é direto: mercados maduros disputam energia com filas de transmissão de anos e resistência social a nova geração. O Brasil tem demanda, energia limpa e, agora, um instrumento fiscal aprovado.
O gargalo que restava e a lei que o destravou
O ponto fraco era o custo: construir data center no Brasil custa 36% a mais que nos Estados Unidos, sobretudo por carga tributária sobre equipamentos.
É esse gargalo que o ReData, aprovado pelo Senado em 1º de setembro, ataca: suspensão por cinco anos de Imposto de Importação, PIS Cofins e IPI na compra de equipamentos, com contrapartidas de mercado interno, energia limpa e eficiência hídrica. A janela fiscal que estava fechada abriu. Falta transformar fila em obra, que é sempre a parte mais difícil.
O que isso significa para quem não é gigante
A onda não é só dos hyperscalers. Três efeitos chegam às empresas comuns:
- Capacidade local com latência local: mais data center em solo nacional significa mais opções para hospedar carga brasileira perto do usuário, com latência que a distância internacional não permite e soberania de dados por padrão.
- Preço competitivo: escala chegando ao mercado doméstico pressiona o custo de infraestrutura para baixo, do colocation ao hosting gerenciado.
- Ecossistema: fornecedores, integrações e talentos se adensam ao redor dos polos de data center. Quem opera infraestrutura nacional compra desse ecossistema mesmo sem construir um rack.
Conclusão
2 trilhões de reais é um plano de país, não de setor. O que faz planos assim virarem realidade é a conversão da fila: 38 GW pedidos, 7,1 GW adiantados, tributo destravado.
Para a empresa que decide hoje onde hospedar a carga dos próximos cinco anos, o mapa mudou: infraestrutura nacional deixou de ser plano B tributário e virou tese de produto, com energia limpa, latência e jurisdição a favor. A janela está aberta, para o país e para quem souber ocupá-la.