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OAB vs Enter: a disputa que define quem pode comprar IA em profissões reguladas

Gabriel Ferraresi· CEO | Tech8629 de outubro de 20263 min
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Uma startup brasileira de dois anos e meio vale 1,2 bilhão de dólares, tem o fundo de Peter Thiel como sócio e foi processada pela OAB de São Paulo. O processo não cita fraude nem vazamento de dados. O que está em disputa é o canal de vendas: quem pode comprar uma IA que escreve peças jurídicas.

A Enter virou o primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina levantando 100 milhões de dólares numa rodada liderada pelo Founders Fund. O produto analisa processos, sugere estratégia e elabora a primeira versão das peças. O cliente não é o escritório de advocacia: é o departamento jurídico da empresa, aquele que usa a ferramenta para reduzir o que paga a bancas externas.

A tese que o processo instala

A ação civil pública foi ajuizada em 7 de outubro. E o pedido é tecnicamente interessante: a tese é que assinatura sozinha não comprova trabalho.

A OAB-SP quer registro de quem escolheu a estratégia de defesa, quem revisou cada texto, quais alterações foram feitas, um tempo de revisão compatível com a leitura, o advogado responsável identificado em cada minuta e as fontes indicadas. Quer auditorias independentes a cada seis meses, por cinco anos, com auditor escolhido pela Justiça e pago pela empresa. E quer os registros preservados desde janeiro de 2024.

A tese é boa. Assinar não é analisar. Se um agente produz todas as minutas e o advogado apenas assina, a responsabilidade profissional virou carimbo.

A resposta da Enter e o detalhe que revela a briga real

A resposta da Enter: a revisão, a assinatura e o protocolo continuam com advogados contratados pelas empresas clientes, a tecnologia é apoio e várias das medidas pedidas já são práticas atuais da operação.

Agora o detalhe que revela a briga real. A OAB pede, como alternativa, que a recomendação de estratégias e a elaboração de minutas sejam vendidas apenas a advogados ou sociedades de advocacia.

Ou seja: se não der para fiscalizar, o cliente só pode ser advogado.

E aí a disputa deixa de ser sobre tecnologia. A Enter cresceu vendendo para o jurídico interno da empresa, que usa a ferramenta para cortar o que paga a escritórios externos. O que a OAB quer é o canal.

A ironia do relógio

O critério de prova escolhido é o tempo de revisão compatível com a leitura, e o pedido é defensável como controle: ninguém revisa cinquenta páginas em trinta segundos.

Mas o relógio é a métrica de quem cobra por hora, e a máquina comprime o tempo. O advogado que revisa em metade do tempo começa a parecer que não trabalhou.

Fica o que ninguém está dizendo. O volume de processos repetitivos era o campo de treino de estagiário e júnior, onde a profissão formava os futuros seniores. Essa porta está fechando agora.

Conclusão

Advogado é só o primeiro. Toda profissão regulada que prova trabalho com hora vai passar por essa porta. No Brasil, a prova começou a ser cobrada contra um unicórnio.

O caso segue vivo: a OAB-RJ pediu para entrar na ação, e a OAB editou nesta semana as regras de acordo com empresas que vendem IA jurídica. Para quem opera com IA em ambiente regulado, o recado é operacional: trilha de decisão, tempo de revisão documentado e fronteira clara entre quem executa e quem assina, antes que o processo desenhe isso por você.

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Governança de IA para operações reguladas

Perguntas Frequentes

A Enter é uma startup brasileira de dois anos e meio, avaliada em 1,2 bilhão de dólares, com o fundo de Peter Thiel como sócio e 100 milhões de dólares levantados numa rodada liderada pelo Founders Fund. É o primeiro unicórnio de IA da América Latina. A ação civil pública, ajuizada em 7 de outubro, não cita fraude nem vazamento de dados: o que está em disputa é o canal de vendas de uma IA que analisa processos, sugere estratégia e elabora a primeira versão das peças jurídicas.

Que assinatura sozinha não comprova trabalho. A OAB quer registro de quem escolheu a estratégia de defesa, quem revisou cada texto, quais alterações foram feitas, um tempo de revisão compatível com a leitura, o advogado responsável identificado em cada minuta e as fontes indicadas. A tese é boa: se um agente produz todas as minutas e o advogado apenas assina, a responsabilidade profissional virou carimbo.

Auditorias independentes a cada seis meses, por cinco anos, com auditor escolhido pela Justiça e pago pela empresa, e os registros preservados desde janeiro de 2024. E o pedido alternativo revela a briga real: que a recomendação de estratégias e a elaboração de minutas sejam vendidas apenas a advogados ou sociedades de advocacia. Ou seja, se não der para fiscalizar, o cliente só pode ser advogado.

A empresa diz que a revisão, a assinatura e o protocolo continuam com advogados contratados pelas empresas clientes, que a tecnologia é apoio e que várias das medidas pedidas já são práticas atuais da operação. O caso segue vivo: a OAB-RJ pediu para entrar na ação, e a OAB editou nesta semana as regras de acordo com empresas que vendem IA jurídica.

Advogado é só o primeiro. Toda profissão regulada que prova trabalho com hora vai passar por essa porta. A ironia técnica é que o critério de prova escolhido, tempo de revisão compatível com a leitura, é defensável como controle, mas o relógio é a métrica de quem cobra por hora, e a máquina comprime o tempo. É a mesma tensão que o [marco legal da IA](https://www.tech86.com.br/blog/marco-legal-ia-um-voto-multa-50-milhoes-anpd) e a [regulação por números](https://www.tech86.com.br/blog/brasil-regula-ia-por-numeros-decreto) estão instalando no Brasil: trilha, prova e responsabilidade com nome.

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